Entendendo e treinando o autocontrole - Resenha crítica - 12min Originals
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Entendendo e treinando o autocontrole - resenha crítica

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Este microbook é uma resenha crítica da obra: 

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 

Editora: 12min

Resenha crítica

O cérebro que aprende a não explodir

Tem uma cena banal que se repete todos os dias em alguma esquina do mundo. Alguém fecha o seu carro, alguém manda uma mensagem fora de hora, alguém diz a coisa errada na reunião errada... e então o corpo dispara. O coração acelera. A mandíbula trava. o pensamento é uma explosão. A frase que vai sair já está formada, e ela quase nunca é uma frase boa.

A cena é universal porque a biologia é universal. O que mudou, nos últimos vinte anos, é o que a ciência aprendeu sobre o que acontece no instante entre o gatilho e a resposta. E o que a ciência aprendeu tem implicações práticas... talvez maiores do que qualquer técnica de produtividade ou bem-estar que esteja na moda.

O nome técnico é regulação emocional. Em agosto de dois mil e vinte e quatro, a Harvard Health Publishing publicou uma síntese sobre o tema, revisada por Gregory Fricchione, médico do conselho editorial da casa e psiquiatra do Massachusetts General Hospital. A tese central era simples... a capacidade de gerenciar emoções não é um traço fixo de personalidade. É uma habilidade. E habilidades, por definição, podem ser treinadas.

A afirmação parece óbvia, mas vai contra séculos de senso comum. Por muito tempo se acreditou que a pessoa equilibrada nascia equilibrada, e a explosiva nascia explosiva. A literatura clínica contemporânea desfaz isso. A Escola de Medicina de Yale, em uma nota editorial recente, foi categórica... a regulação emocional é um conjunto de habilidades intencionais e aprendidas. O temperamento influencia a reatividade, mas a regulação em si é ensinada e treinada... como aritmética. E vale para qualquer idade.

E há um corolário interessante. Yale lembra que existe um fator esquecido nessa discussão... a corregulação. Pessoas regulam pessoas. Crianças aprendem a se acalmar acalmando-se com adultos calmos. Adultos refazem essa engrenagem em relações conjugais, em times de trabalho, em sala de aula. O ambiente emocional ao redor importa tanto quanto a habilidade individual.

Quem fez a ponte mais sólida entre teoria e prática foi James Gross, professor de psicologia em Stanford. Nos anos noventa, Gross formulou o que ficou conhecido como modelo de processo da regulação emocional. Ele identificou duas estratégias principais para lidar com emoções negativas. A primeira é a reavaliação cognitiva, ou seja, mudar a forma como se interpreta o que está acontecendo, antes que a emoção tome corpo. A segunda é a supressão expressiva, ou seja, segurar a cara, engolir o que se sente, fingir que está tudo bem.

A descoberta de Gross foi mostrar que essas duas estratégias têm consequências radicalmente diferentes. Reavaliar reduz a experiência emocional, reduz a expressão e não compromete a memória. Suprimir, por outro lado, reduz só a expressão. A emoção segue lá dentro, o corpo segue tenso, e ainda há prejuízo de memória. Pior... a supressão aumenta a resposta fisiológica em quem suprime e em quem está por perto. Quem segura sentimento, em larga medida, contamina o ambiente.

Vale insistir nesse ponto, porque ele desfaz uma intuição comum. A pessoa que parece controlada porque nunca demonstra emoção, na verdade, está fazendo o trabalho menos eficiente possível. Está pagando o preço fisiológico inteiro do impacto emocional, e ainda por cima reduzindo a capacidade de processar a experiência. O profissional que segura a frustração na reunião e desaba em casa, o casal que evita conflito por dez anos para explodir no ano onze, o pai que engole a raiva até ela virar outra coisa... todos estão suprimindo. Reavaliar é diferente. Reavaliar é olhar o e-mail rude e pensar que talvez a pessoa esteja tendo um dia ruim, antes que o corpo entre em modo de defesa. É uma operação cognitiva, não um esforço muscular.

A neurociência confirmou no cérebro o que Gross mostrou no comportamento. Em dois mil e sete, Matthew Lieberman, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, publicou um estudo na revista Psychological Science que se tornou referência. Participantes em ressonância magnética funcional olhavam para fotos de rostos com expressões emocionais intensas. Quando pediam que apenas nomeassem a emoção do rosto, alguma coisa curiosa acontecia... a amígdala, região cerebral associada ao alarme emocional, reduzia sua atividade. Em paralelo, o córtex pré-frontal ventrolateral direito, ligado ao controle cognitivo, se acendia. Anexar uma palavra a uma emoção, literalmente, baixa o volume do alarme. O fenômeno foi batizado de affect labeling.

A descoberta deu sustento neurobiológico a uma prática que existia há milênios na tradição contemplativa... a observação consciente do que se está sentindo. Não é mística. É um circuito.

O outro pilar é o mindfulness, a atenção consciente ao presente. Sara Lazar, neurocientista de Harvard, demonstrou em estudos sucessivos que oito semanas de prática regular produzem aumentos mensuráveis de massa cinzenta em regiões ligadas a aprendizado, memória e autorregulação. A amígdala, por sua vez, encolhe. O cérebro literalmente muda de forma com a prática. Uma meta-análise publicada em dois mil e quatorze, conduzida por Buhle e colegas, varreu quase cinquenta estudos de neuroimagem e confirmou o padrão... reavaliar emoções ativa circuitos pré-frontais e desativa a amígdala de forma consistente.

E não para na cabeça. A regulação emocional tem consequências em ferro e sangue. Pesquisas publicadas em periódicos como o Journal of Behavioral Medicine mostram que pessoas com boa capacidade de regular emoções têm pressão arterial mais estável, menos comportamentos de risco e melhor adesão a tratamentos. Estima-se que cerca de oitenta e oito por cento da doença cardiovascular seja prevenível por meio de comportamentos saudáveis e controle dos fatores de risco, e a regulação emocional entra nessa conta. O que parece ser uma questão psicológica é, no fim, também uma questão circulatória.

Em paralelo, terapias estruturadas em torno da regulação emocional vêm acumulando evidência sólida. Uma revisão guarda-chuva publicada no Journal of Psychiatric Research em dois mil e vinte e quatro reuniu vinte e uma revisões sistemáticas e onze meta-análises, e concluiu que a terapia cognitivo-comportamental e a terapia comportamental dialética são, hoje, as intervenções com maior efeito demonstrado em adultos com sofrimento psíquico variado.

A reta final da história, no entanto, traz uma ressalva importante. Em dois mil e dezoito, um grupo da Universidade de Nova York refez parcialmente o famoso teste do marshmallow, o experimento dos anos sessenta de Walter Mischel, em Stanford, em que crianças escolhiam entre comer um doce imediatamente ou esperar para ganhar dois. O estudo original sugeria que crianças com mais autocontrole tinham, décadas depois, melhor desempenho escolar, mais saúde e mais renda. A replicação confirmou parte do efeito, mas trouxe outra peça... contexto socioeconômico pesa muito. Quem cresce em ambiente instável aprende, com razão, a não esperar pela segunda recompensa. Regulação emocional não é só sobre força de vontade. É também sobre a estabilidade do mundo em torno.

Daí a Harvard defende uma técnica simples como ponto de partida... pare, respire, reflita, escolha. A fórmula é uma variação da técnica STOP, ensinada nos protocolos de redução de estresse baseada em mindfulness e em terapia dialética comportamental. Quatro segundos entre o gatilho e a resposta. O suficiente, segundo a literatura, para a amígdala perder o monopólio da decisão.

A boa notícia é que isso é treinável. A menos confortável é que treinar significa fazer todos os dias, sem aplicativo mágico, sem atalho. É preciso reparar, nomear, escolher. Repetir.

E talvez seja essa a parte mais subversiva da pesquisa contemporânea sobre regulação emocional. Em uma cultura que vende impulso como liberdade e reação rápida como sinal de inteligência, a evidência aponta para o oposto... o exercício do intervalo. Da pausa. Do segundo a mais antes da palavra.

A próxima vez que alguém fechar o seu carro, talvez seja o experimento mais barato de neurociência ao qual você terá acesso na semana.

O que fazer com essa informação

Use a técnica do intervalo. Sempre que sentir o corpo reagindo antes da cabeça, faça quatro paradas. Pare. Respire devagar. Reflita sobre o que está sentindo, dando um nome à emoção. Só então escolha como responder. A literatura mostra que esse intervalo, mesmo curto, ativa o córtex pré-frontal e reduz a reação automática da amígdala.

Prefira reavaliar a suprimir. Quando uma situação te incomodar, em vez de engolir e seguir, tente reescrever a interpretação no momento. O e-mail rude pode ser pressa, não maldade. O comentário ácido pode ser cansaço, não maldade. Reavaliar custa menos ao corpo e à memória do que segurar sentimento.

Nomeie o que sente, em palavras específicas. Trocar genéricos como estresse ou ansiedade por palavras mais precisas, como frustração, decepção, sobrecarga ou medo, ativa circuitos cerebrais que reduzem a intensidade emocional. O termo técnico é affect labeling, e o efeito é mensurável em ressonância magnética.

Considere a prática regular de mindfulness. Não é preciso virar monge. Estudos consistentes mostram que oito semanas de prática diária, de poucos minutos, já produzem mudanças estruturais no cérebro.

Cuide do ambiente em volta. Regulação emocional é também social. Trabalhe e conviva, sempre que possível, com pessoas que regulam bem, porque a corregulação contagia... para os dois lados.

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